O formato daquelas marcas era inconfundível. Não era o corte de uma vassoura, nem a pressão de dedos calejados pelo trabalho doméstico.
Eram marcas exatas de unhas de acrílico pontiagudas.
Henrique baixou os olhos lentamente para as mãos de Camila, que ainda tremiam no ar, decoradas com esmalte vermelho vibrante.
“O que… o que é isso no corpo do meu filho?”, a voz de Henrique perdeu a fúria e se transformou em um sussurro aterrorizado.
“Ela deve ter beliscado ele quando eu não estava olhando!”, Camila tentou argumentar, a voz subindo de tom, beirando a histeria. “Ela quer nos separar, Henrique! Ela odeia que eu ocupei o lugar da falecida!”
“Cale a boca sobre a Clara!”, rebateu Henrique, a voz cortando o ar como uma lâmina de gelo.
Mercedes acariciou os cabelos do menino, que agora chorava baixinho, exausto de tanta dor e medo.
“Seu Henrique, eu nunca faltei com o respeito à memória da dona Clara”, disse Mercedes, tirando do bolso do avental um aparelho telefônico antigo. “E foi pensando na dona Clara que eu não deixei esse monstro destruir essa casa.”
Camila empalideceu. O rubor de falsa vítima sumiu de suas bochechas em um piscar de olhos.
“O que você tem aí, sua velha idiota?”, rosnou Camila, perdendo de vez a máscara de mulher doce e refinada.
“Há duas semanas o Pedrinho começou a fazer xixi na cama e a ter pesadelos horríveis”, começou a idosa, com lágrimas pesadas descendo pelas rugas do rosto.
“Eu vi as primeiras manchas nas costas dele, mas não tinha como provar. Toda vez que eu perguntava, ele dizia que o monstro ia pegar ele se contasse.”
Mercedes desbloqueou a tela do celular com as mãos trêmulas.
“Hoje de manhã, quando o senhor saiu para o escritório, eu deixei o gravador de voz ligado em cima do aparador, escondido atrás do vaso de flores.”
“Não ouse tocar isso!”, gritou Camila, avançando como uma fera para tentar arrancar o telefone das mãos da idosa.
Mas Henrique foi mais rápido. Com um reflexo violento, ele segurou o braço de Camila no ar, apertando o pulso dela com força.
“Solta ela, Camila. E fica parada aí”, ordenou ele, os olhos injetados de uma dor profunda e devastadora.
Mercedes apertou o botão de reprodução.
O som ambiente da sala preencheu o silêncio fúnebre da cobertura.
Primeiro, ouvia-se o barulho suave da televisão ligada em um desenho animado, seguido pelo som rítmico dos saltos de Camila se aproximando.
Então, a voz cristalina e aterrorizada de Pedrinho surgiu no alto-falante: “Tia Camila, não… eu comi tudo, não precisa beliscar…”
E a resposta veio fria, destilando puro veneno, em um tom que Henrique jamais imaginou ouvir da esposa:
“Cala essa boca, seu fedelho. Você acha que eu me importo se você comeu? Você é o único motivo daquele idiota do seu pai não passar tudo pro meu nome.”
Henrique cambaleou para trás, soltando o braço de Camila como se tivesse tocado em brasa viva.
O áudio continuava implacável:
“Chora mais alto! Chora que eu quero que essa velha decrépita venha correndo. Hoje ela vai embora dessa casa nem que seja presa. E se você abrir esse bico pro seu pai, eu quebro os seus dedinhos enquanto você dorme, entendeu bem?”
Na gravação, ouvia-se o som estalado de um beliscão impiedoso, o grito ensurdecedor de Pedrinho e o estalo da vassoura sendo quebrada.
Mercedes desligou o áudio.
O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que qualquer grito.
Camila olhava de um para o outro, os cantos da boca repuxados em um ódio cru, desprovido de qualquer resquício de remorso.
“Você é uma vagabunda chantagista!”, cuspiu Camila, sem se dar ao trabalho de fingir mais nenhuma lágrima.
Ela encarou Henrique com desprezo aberto, a postura ereta e zombeteira.
“E você, Henrique, é um fraco. Um patético que vive preso à memória de uma mulher morta. Achou mesmo que uma mulher como eu se apaixonaria por um viúvo deprimido e um pirralho mimado?”
As palavras dela atingiram Henrique como golpes físicos, mas o choque inicial já havia se transformado em uma indignação esmagadora.
“Eu te dei tudo…”, balbuciou ele, a voz embargada. “Eu te trouxe para a minha vida, para a vida do meu filho…”
“Você me deu migalhas!”, rebateu ela friamente. “Aquele testamento idiota deixa quase tudo bloqueado para ele até os vinte e cinco anos. Eu ia ter que esperar uma vida inteira sendo babá de um bastardo?”
“Chega!”, gritou Henrique, a voz ecoando por todo o apartamento e fazendo os vidros das janelas vibrarem.
Ele tirou o próprio celular do bolso com uma calma assustadora e discou três números.
“Polícia Militar? Preciso de uma viatura com urgência na Avenida Atlântica, cobertura 402. Minha esposa acabou de agredir e torturar o meu filho de quatro anos. Tenho provas materiais e testemunhas.”
Ao ouvir a palavra “polícia”, Camila perdeu a compostura arrogante.
“Você não vai arruinar a minha vida por causa desse moleque!”, gritou ela, correndo em direção à porta de entrada para tentar fugir.
Mas Henrique se colocou na frente da saída, trancando a fechadura digital com uma expressão de ferro no rosto.
“Você não dá mais um passo fora dessa casa sem algemas nas mãos, Camila.”
Ela tentou arranhá-lo, gritou impropérios, chutou as portas e amaldiçoou a família inteira, mas Henrique permaneceu imóvel como uma muralha.
No canto da sala, Mercedes manteve Pedrinho de costas, cobrindo os ouvidos do menino e cantando baixinho a mesma canção de ninar que Clara costumava cantar.
Dez minutos depois, o elevador apitou novamente.
Três policiais armados entraram no hall, acompanhados pelo chefe de segurança do edifício que havia sido alertado pela portaria.
Ao ver a polícia, Camila tentou uma última cartada de vitimização, mas Henrique simplesmente estendeu as fotos tiradas da perna do filho e entregou a gravação aos oficiais.
Quando as algemas de aço se fecharam em torno dos pulsos finos de Camila, o clique metálico pareceu quebrar a maldição que pairava sobre aquele lar.